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Astrikos Katoikos - "Senhora da Madrugada"

2026-07-21 2 Dailymotion

Na infância, havia ratos sob a tábua carcomida,
e um pai de hálito ardente devastando-lhe a vida;
cada prato era um litígio, cada noite uma cilada,
a casa, um mausoléu de infância violentada.

A mãe, entre hematomas e rosários de fadiga,
costurava o próprio pranto na penumbra inimiga;
e a menina, muito cedo, aprendeu sem alegoria
que há criaturas sorrindo com punhais de cortesia.

Vieram homens viscosos de gravata e devoção,
com moedas nos bolsos e enxôfre no coração;
tomaram-lhe a adolescência num quarto isolado,
onde até Cristo na parede parecia estar vendado...

Senhora da madrugada...
Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério
e transforma desespero num perfume grave e etéreo
Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão

Fugiu por vielas turvas sob garoas de ferragem,
dormindo entre cães magros e jornais de estiagem;
na sarjeta repartia pão mofado e cobertores,
mesmo tendo nos próprios ossos um deserto de dores.

Havia mendigos cegos que chamavam seu nome,
e crianças sem sapato, raquíticas da mesma fome;
ela dava o que não tinha, cigarro, abraço, migalha
como santa clandestina sob a fuligem da batalha.

Às vezes ria sozinha nos viadutos da cidade,
com batom barato e frio disfarçando a tempestade;
mas depois, diante da lua e das vitrines apagadas,
chorava como quem guarda catedrais abandonadas.

Senhora da madrugada...
Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério
e transforma desespero num perfume grave e etéreo
Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão

Numa madrugada ríspida de junho sem clemência,
quatro homens a cercaram com navalhas e indigência;
o asfalto bebeu seu sangue com garrafas partidas,
e a aurora nasceu doente sobre as avenidas.

Agora vem nos terreiros entre rosas e aguardente,
com gargalhada de brasa e olhar antigo, penitente;
ampara moças feridas por amantes e violência,
e ensina às almas partidas o difícil da existência.

Quando baixa, até o luar modifica a travessia,
pois existe nela um resto de miséria e poesia;
e quem sente sua presença junto às velas da gira
ouve as ruas soluçando na chegada da pomba-gira.

Senhora da madrugada...
Hoje ela risca fumaça na esquina do cemitério
e transforma desespero num perfume grave e etéreo
Seu vestido tem a noite das mulheres sem perdão
mas há lírios invisíveis florescendo em sua mão

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Astrikos Katoikos
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