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Astrikos Katoikos - "Encruzilhadas da Aflição"

2026-07-21 1 Dailymotion

Na caatinga, o sol tinha garras de desventura,
e a fome roía crianças na extensão da secura;
ele nasceu entre ossadas, mandacarús e poeira,
vendo a morte pôr a mesa na miséria brasileira.

A mãe fervia água turva com pedras e desespero,
o pai bebia cachaça para esquecer o paradeiro;
cabras magras, olhos fundos, rezas feitas sem igreja,
e urubus desenhando círculos sobre a pele sertaneja.

Quando menino, furtava rapadura nos mercados,
apanhando dos soldados e dos homens engomados;
mas dividia o que tinha com velhas e retirantes,
como quem já compreendesse o idioma dos errantes.

Então surgiu o Conselheiro, barba, sujeira e profecia
arrastando multidões pela rachada Bahia;
e ele foi para Canudos sob um céu de epidemia,
vendo pobres construírem uma espécie de utopia.

(Refrão)
Hoje ele risca o chão nas encruzilhadas da aflição
com gargalhadas de charuto e punhais de proteção
Sua cartola ainda guarda retirantes sem destino
feito um santo maldito do sertão nordestino

Lá ouviu sermões antigos contra a República fria,
contra impostos e fuzis da recente tirania;
mas depois vieram tropas como cães de mortandade,
incendiando casas tortas e ofendendo a humanidade.

Canhões abriram crateras entre rezas e gemidos,
o sangue virou um barro de cadáveres vencidos;
ele fugiu entre espinhos, vísceras, pólvora e poeira,
com a imagem de Antônio Conselheiro ardendo inteira.

Na cidade fez-se bruto, com faca, jogo e contrabando
dormindo atrás dos cortiços e dos portos fumegando;
muitas vezes lutou com homens por um gole e por um prato,
pois a fome torna o peito semelhante ao desacato.

Havia nele um incêndio de vergonha e violência,
uma sede sem repouso devastando a consciência;
e embora risse nas tavernas entre a revolta e o aguardente,
carregava Canudos carbonizado eternamente.

(Refrão)
Hoje ele risca o chão nas encruzilhadas da aflição
com gargalhadas de charuto e punhais de proteção
Sua cartola ainda guarda retirantes sem destino
feito um santo maldito do sertão nordestino

Morreu num beco imundo por ódio e dívida escura,
com facadas lhe abrindo flores negras na nervura;
ninguém velou seu cadáver sob a chuva dos lampiões,
só os ratos e o apito funerário dos vagões.

Agora baixa nos terreiros com charutos e fumaça,
com capa escura, olhar duro e uma estranha velha graça;
ampara homens derrotados pelos descaminhos e pelo crime,
pois conhece cada umbral onde a miséria redime.

Quando aparece no terreiro, até o couro do tambor delira,
como se Canudos inteira ressurgisse na gira;
e quem escuta seu ponto na madrugada mais fria
ouve o sertão soluçando dentro da alta magia.

(Refrão)
Hoje ele risca o chão nas encruzilhadas da aflição
com gargalhadas de charuto e punhais de proteção
Sua cartola ainda guarda retirantes sem destino
feito um santo maldito do sertão nordestino

...sempre com muita sabedoria e calma
Saravá senhor Tranca-Ruas das Almas ...

Astrikos Katoikos
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