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Era manhã de sol e labirinto,
o vidro brilhava em falso instinto.
No alto do prédio, um estalo breve
fez da rotina um peso que se atreve.
A chama veio do ar condicionado,
um fio distraído, uma faísca, um dado.
E em poucos segundos, o corredor
virou garganta de fogo e pavor.
Gente correndo, o fumo espesso,
as vozes cortadas no mesmo endereço.
Quem procurava a escada aberta
achou a tragédia, densa e certa.
(Refrão)
Não há inferno, nem paraíso,
há só o fogo e o seu juízo.
Quem apela pra passado, ofende a chama,
pois toda dor é quem se inflama.
Não há pecado no que se extingue,
só a alma aleatória que se distingue.
Quem chama de karma o que foi calamidade,
Culpa as vítimas por sua fatalidade.
Uns se esconderam nas salas cheias,
outros gritaram das sacadas cadeias.
E havia dezenas, no último andar,
Que apenas saltaram sem hesitar.
O fogo subia como sentença,
devorava oxigênio, vidro e crença.
Cada janela era uma fronteira
entre a esperança e a fogueira.
As sirenes vinham, mas não bastavam,
os anjos de carne já desmaiavam.
E os corpos caíam, um por um,
feito estrelas cadentes, nada comum.
(Refrão)
Não há inferno, nem paraíso,
há só o fogo e o seu juízo.
Quem apela pra passado, ofende a chama,
pois toda dor é quem se inflama.
Não há pecado no que se extingue,
só a alma aleatória que se distingue.
Quem chama de karma o que foi calamidade,
Culpa as vítimas por sua fatalidade.
No elevador treze almas ficaram unidas,
de mãos dadas, nas despedidas.
Não houve prece, nem direção,
apenas desespero e combustão.
A tarde chegou, mas nada efetivo,
apenas fumaça e olhar cativo.
O prédio exalava um som vazio,
de almas presas num céu sombrio.
E à noite, o vento soprou memória,
levando ao longe a mesma história:
que o fogo não veio pra castigar,
mas pra lembrar, o que é passar.
(Refrão)
Não há inferno, nem paraíso,
há só o fogo e o seu juízo.
Quem apela pra passado, ofende a chama,
pois toda dor é quem se inflama.
Não há pecado no que se extingue,
só a alma aleatória que se distingue.
Quem chama de karma o que foi calamidade,
Culpa as vítimas por sua fatalidade.
O Joelma ardeu, mas não se apaga,
na pedra o horror, na imagem a chaga.
O fogo cala, mas diz também:
a dor do homem não morre em ninguém.
"Cento e oitenta e uma pessoas morreram, mas jamais serão esquecidas"
(Refrão)
Não há inferno, nem paraíso,
há só o fogo e o seu juízo.
Quem apela pra passado, ofende a chama,
pois toda dor é quem se inflama.
Não há pecado no que se extingue,
só a alma aleatória que se distingue.
Quem chama de karma o que foi calamidade,
Culpa as vítimas por sua fatalidade.
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Astrikos Katoikos
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